Espero que vocês meus alunos dos primeiros anos lembrem-se da aula que tivemos sobre aspectos da literatura quando apresentei a vocês alguns ideias em torno da literatura. Conversamos sobre a Grécia, a figura do aedo Homero e as narrativas da Ilíada (lembram do Cavalo de Tróia?) e da Odisseia (lembra da Penélope e das Sereias?). Muito bem, a ideia da escrita implícita ou contida nos gestos de Penélope tecendo o manto enquanto esperava por Ulisses é uma metáfora para a escrita. Naquela aula lemos juntos o poema "Penélope Insone" do livro Fundo falso (2019) da poeta mineira Monica de Aquino, lembram? Pois bem, além deste poema para relembrar posto aqui dois poemas do livro FIA (2016) da poeta pernambucana Jussara Salazar. Um livro feito a partir dessa ideia do gesto das fiandeiras que transformam o algodão em fios e com estes, tecem as roupas, mas tecem também as histórias, as rezas, a celebração da vida. Nossas vidas estão de algum modo sempre tramadas em outras vidas, um tecido de narrativas. Diante de um poema somos também tecelãs e tecelões urdindo sentidos para o poema. Cada palavra, cada imagem é um fio de sentido possível. Quando lemos poemas de diferentes épocas somos capazes de movimentar os tempos e aproximá-los para associar as ideias e aumentar os sentidos. Por isso retomo a ideia vinda da Grécia antiga para não "perder o fio da meada" e convido vocês para ler os poemas abaixo e em seguida deixo o link para um curta sobre a vida e do cuidado que devemos ter par não reproduzir velhos pré-conceitos e gestos pois como canta Elis Regina em "Como nossos pais" lembra que "Ainda somos os mesmos/ E vivemos/ Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais". Então é fácil repetirmos coisas sem perceber pois aprendemos por exemplos. Na mesma musica a letra diz que embora tudo isso aconteça o "novo sempre vem". Devemos estar aptos par ao novo e isso exige pensar sempre bem. Por fim um link par um curta Vida Maria de Márcio Ramos que ilustra essa repetição a qual importa quebrarmos o ciclo. Pensem se esse conjunto faz algum sentido para vocês. Boa leitura. Fiquem em casa e mantenham-se saudáveis.!
Penélope Insone
Monica de Aquino
Completar a urdidura do dia
Saber do manto o desenho exato
saciar toda fome de geometria
conhecer o trabalho, no limite dos olhos.
Recriar-se inexata sem simetria
Até terminar o diagrama de escolhas.
Só então destruir, com agulha e tesoura
Cada amor imaginado.
Conservar apenas a memória das mãos
Sobre o tecido, o percurso do fio
a desfazer o possível antes da aurora.
Penélope dissolve-se na hipótese:
quer conhecer, em detalhes, o manto
que a separa do outro.
Tece o pano como quem toca
O corpo de um homem, de cem homens
Desfaz a mortalha como se destruísse um
véu.
Fere a carne do pano, fere o dedo na pressa
E mancha, com sangue, a colcha de
Promessas.
Mas ante isso:
Recusa o passado seus retalhos
Prefere o que ainda não aconteceu
Enquanto pensa: Ulisses, agora, sou eu.
*
UM SUDÁRIO TECIDO
à luz do candeeiro
alonga-se sombra delgada
na parede da noite
Um ritual
de ramos raízes touceiras
para nenhuma foice
mas para o grão
brotando
à luz do silêncio
na seda das mãos. Debulhando
espigas do algodão mais bruto
sob o olhar da lagarta de fogo
a tramar seu interminável corpo.
MARIA PASTORA
da luz tresmalhada
Maria da agulha afiada. Sangra
o algodão branco
alinhava
a flor e a cruz. Maria de jesus
recolhe as folhas
que a correnteza espalha
Maria Pastora dos rebanhos
das primas velhas
dos vestidos pretos
dos frascos de lavanda
ds bonecas de cera
da bainha descosturada
Maria dos frutos abertos
no caseado
Maria dos atados
*


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